segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Eu não gostava dele naquela época

Eu costuma escrever cartas e esconder dentro de livros.
Eu achei que talvez as palavras escorressem e fizessem que elas entrassem no mundo de Dorian Gray e quem sabe eu recebesse uma resposta de Madame Bovary.
Achei talvez um dia quem sabe pode ser apesar de tudo,
que você acharia aquela carta. Aquelas cartas. Perdidas, soltas, em prateleiras de pessoas desconhecidas, agitadas.
A garota folheava aquelas páginas com os dedos lambuzados, sedenta de prazer e carne. Os cabelos com cachos rubros se desmantelavam enquanto a menina gemia palavras de amor, carinho, luxúria. Dor. O cheiro de canela brotava das páginas e inundava o corpo nu que se contorcia em nós dantescos.
O medo, o pavor, o desespero derrubavam o garoto. Cada palavra que ele lia, afiadas como lâminas de um assassino, agitavam a câmara atrial. O suspiro trôpego que anunciava o fim da vida pairava sobre a janela escura. O frio lá fora tilintava as folhas. Frio tão frio quanto o copo com água, do lado das pílulas. Daquelas dezenas de pílulas. Era só aquela vez. Só uma dor. A ultima. Ele pega o copo. Ele pega as pílulas. Ele abre a boca. Ele põe as pílulas. Vai acabar, vai sim.
Só.
Um.
Gole.
Não, eu não tenho coragem. Jamais.
O sorriso amarelo de cigarro era a marca registrada do magnata, que exibia seu relógio de brilhantes no meio do salão. As pessoas cobiçavam sua presença, sua atenção. Um minuto, vocês precisam ver a última ilha que eu comprei. E subiu nas escadas, indo em seu quarto. O sorriso amarelo brilhava com aquele momento. Finalmente, um momento em que ele poderia estar só consigo. Quando chegou no quarto, fechou a porta atrás de si e se dirigiu ao armário. Abriu seu universo particular: guardava seu primeiro relógio de bolso que ganhara do avô, antes de se matar; uma parede ilustrada com fotos de carros e ilhas, mansões gigantescas, tudo em seu nome. Um revólver de aço repousava em uma caixa adornada com medalhões de cobre, da época em que seu pai era militar. Eram tempos difíceis aqueles. Seguiu para a parede e pegou um dos quadros, o que balançou toda a estrutura e derrubou uma série de imagens no chão. Uma delas era a foto da sua família. A quem pertencia. Sua filha, seus filhos, sua mulher e seu neto. Todos sorriam na foto, felizes. Se guardavam em um abraço apertado e generoso, acolhedor. Eles estavam do outro lado do oceano agora, provavelmente se levantando para iniciar o dia. O magnata não estava na foto, para ser sincero. Ela foi tirada na semana em que ele foi encontrar algumas prostitutas em uma boate no Rio.
Pá. Um único tiro atravessou a cabeça do velho, desferido por aquela arma de seu pai. Há quem diga que foi suicídio. Outros questionam um assassino programado para matar. Eu, acredito que ele já estava morto há muito. Só lembrou de apagar a luz.

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Os camponeses

Por séculos, aprendemos que sempre existe uma camada inferior de seres humanos
O pobre, o negro, o homossexual, a mulher
O estrangeiro, o judeu, o protestante
O prisioneiro de guerra, a bruxa, o visionário
Aquele que discorda sempre queimou na fogueira.
Sugiro então um pacto, por todos aqueles que sufocaram nas cinzas e na censura do impositor.
Sejamos os filhos das bruxas que fugiram, dos deuses esquecidos e detentores do santo graal original.
Cumpramos nosso dever para com o universo da literatura, ciência e cultura e mostremos que nosso rugido retumbará até o último suspiro da grande tartaruga celestial.
Afinal, o leão sempre se importa com a opinião da ovelha; antes de arrebentar o pescoço dela.

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

despedida ao passado próssageiro

Atrelado ao passado insucessivo do meio acadêmico, é notório o famigerado desnorteio com que a palavra escrita cambaleia pelas massas pensantes dos rudimentares caixotes cranianos. O novo e o moderno acabam por subjugar qualquer indício de humanidade dos vocábulos e o medo, sim, o medo arranja uma máscara fantasmagórica que permite sua existência em dimensões nunca antes presenciadas pelo papão. O breu da ignorância acaricia as cabeleiras joviais e repudia as cãs longas e prateadas, que inundam a história com o intelecto mais puro: o empírico. Repudia porque sabe o seu lugar, porque odeia o brilho da coragem. Na luz, somos um.