terça-feira, 28 de julho de 2015

Vinde a nós que recorremos à vós.

A beleza é algo esplêndido. Irreal para seus criadores, fútil para os que a almejam.
Essencial.

Aquele famoso amor.

O amor. Omoplatas de todo onironauta que um dia pousou no mais distante planeta da mais distante galáxia. O amor é algo inexplicável. Desmerecendo o lugar-comum, essa é a expressão que bem mais o define. Do ponto de vista conceitual e denotativo, o amor se mostra como uma aquisição favorável à uma melhor interação do ser humano com o meio que o cerca. Ou ainda o meio que esse cerca, levando em conta a vastidão da mente. Amar, teoricamente, é o florescer de alguns compostos carbônicos e impulsos elétricos e o acaso do encontro. Mas, sinceramente, na minha mais humilde e inofensiva opinião, tudo que se resume à um signo em uma folha de papel e pode ser plenamente interpretado objetivamente não merece existir em um plano de conotativo gigantesco que é a nossa existência.
O amor assume várias faces. O amor recíproco de uma criança pela mãe no segundo que essa nasce, o instinto maternal de cercar seu tesouro de todas as mazelas rastejantes do planeta. O desespero pela respiração que é rapidamente acalentado no morno colo da mãe.
O suspiro exasperado do amor daquele que morreu de amor. Do sujeito que, sem escapatória ao mundo, desistiu de seu "bem mais precioso" em nome de abdicar do amor, e assim encontrou o fim. Ou finalmente um começo. A morte provocada, desejada, esperada. Desesperada. Inevitável a morte.E o amor.
O amor e a morte andam juntos como irmãos, ainda que o abismo jure por todos os céus que esses são diferentes. Mas o amor e a morte são máscaras de um mesmo deus moribundo. Máscaras que regem a existência, sim, mas que são em sua essência mais pura: iguais. A cama, espectadora de diversas anedotas presenciais, em analogia ao deus se mostra como o objeto a carregar os mais pesados sentimentos. A paixão desenfreada de dois amantes. Adúlteros, talvez. Ou ainda os últimos suspiros desajeitados de um pai perante sua prole, que conta os bens do velho em sua contagem regressiva de vida. A morte não é, por definição, ruim. A morte é amar. Amar é morrer.
Todo onironauta que um dia pousou no mais distante planeta da mais distante galáxia o fez por amor. Ao próximo, ao anterior, à mulher (ou à outra). Por Deus, por deuses, por uma ideia e pela promessa de um dia não ter que sonhar mais. Ou o caralho que seja.
Minha dica, onironauta, é que ame até morrer.
E quem sabe, você morra de amores.

segunda-feira, 27 de julho de 2015

térmico

Uma flecha é o que define o desenvolvimento da história de qualquer um em meio à uma sociedade dotada de diferentes modelos de indivíduos, que vomitam diariamente pensamentos e opiniões que expõem a essência do lançador. Uma flecha não pela velocidade e pelo movimento, mas pela incapacidade estrutural de retornar do ponto de partida sem deixar sequelas em ambos os elementos. Qualquer pensador já teve sua ruptura do "eu sei" com o desejo pervertido pela ignorância, pelo fluxo favorável ao movimento de seus companheiros de espécie. É muito fácil poder não saber, apesar do abominável estigma adquirido pela falta de sapiência.
São por vias brutas, de areia fofa e mato áspero que os engenheiros sintetizaram as estradas em que alguém já pisou. Um caminho, antes desconhecido e desconfortável foi desbravado por vanguardistas que aceitaram o triste fardo de um mártir em abrir mão da estabilidade para construir um novo caminho para o futuro. Para os seus futuros. (Netos, filhos, amigos, descendentes.). Ainda que destruídas tais estradas, que mortos os transeuntes e queimados os registros de tais; a estrada já existiu. Apagar algo, de verdade, é quase impossível. O temor pelo esquecimento, medalha de tantos heróis e vilões, é por vezes uma lâmina de duas faces. O anseio pelo esquecimento é quase um suicídio eterno.
Ofereço um brinde fúnebre e um cortejo malicioso ao tempo - este operário das ruínas -, que martela e maquina a grande estrutura de aço inoxidável que é a mente. Seus cordões de marionete que agarram dimensões distintas segurando o espaço e as coisas. Trazendo os dias gelados cinzentos e as noites mornas de verão. Ou ao menos acompanhando, do ladinho mesmo.
Eu anseio por esquecer o que eu nunca conheci. Mas que vou conhecer, e que prometo nunca esquecer.

quinta-feira, 23 de julho de 2015

sem título

Oi. Apresentações são coisas que eu infinitamente gostaria de evitar. A gente pode já se conhecer, há muitos anos, mas não se conhecia. Quer dizer, não se lembrava.
Meu nome é João, lembra? A gente se conheceu faz um tempo. Eu não lembro o mês, nem o ano. Mas eu lembro do dia.
Ele te deu aquela flor, lembra? Que você guardou, depois de esperar por tantas semanas um sinal de gostar. Bonita aquela rosa/margarida/flor. Eu não lembro qual era. Mas era bonita.
Não, pera, acho que estou confundindo.
A primeira vez que a gente se viu foi naquela viagem que a família fez para a praia. Cara, aquele fim de semana vai ficar pra sempre na minha cabeça! Eu nunca achei que ia me apaixonar tão rápido por alguém. Foi com você que eu dei meu primeiro beijo. Sim, lembra? Quando a gente ficou sozinho no mar, no por do sol. Eu gostava muito de ti. Você gostava de mim?
Eu lembro do dia em que a gente se conheceu. A chuva orquestrava aquele momento tão inofensivo. Seus olhos cerrados foram a melhor paisagem que eu já vi. A ponta dos seus dedos pareciam feitas de vidro, arranhando minha alma, mas confortando o meu peito. Eu não sabia como me despedir.
De todas as vezes que a gente se conheceu,
aquela cama de hospital reside em um canto especial do meu coração. Aquele coração que quase parava de bater. Seus dedos de vidro pareciam almofadas quentes, acalentando o resquício de existência que ali residia. Eu não queria me despedir.
Mas eu tive.
Foi muito bom te conhecer.

O primeiro e último mandamento.



Hercules,
o grande
filho de Zeus
filho de Deus
o grande
Jesus,
Aquele que andou entre os mortos
e os vivos


Que foi odiado por reis
e amado por rainhas
Salve Rainha!

Que criou a dúzia celestial
Os apóstolos, os trabalhos

Bom era o pai,
Terrível era o pai,
Criou o mundo, mas criou o mundo
O frio e o medo, o sol e a vida
A caixa de Pandora e a vara de Aarão
A grande Roma se curva perante o pecado original,
E teme
Que Zeus, ou Deus,
Venha,
Ou que não exista.