sábado, 13 de fevereiro de 2016

O sexo e o gênero.

O corpo criou um dos mais complexos sistemas ao designar as genitálias destacáveis - peças de encaixar. Com a mais inocente das intenções, abriu um imenso abismo subjetivo para seres complexos como humanos. Veja, o mundo existe como uma lâmina d'água, frágil e corruptível. O mundo que é lâmina é o ortodoxo, aquele que não causa desconforto ao olhar. O mundo que existe de verdade é mais que isso: é a água profunda e ignota, é o céu imenso e fértil. Não é permitido, segundo as leis celestiais criadas por qualquer entidade sensata, tentar transformar toda a existência em apenas uma mísera linha perdida e transparente que separa as dimensões solitárias dos sonhos e da dor. O homem e a mulher não são extremos, são reflexos na superfície tremulante. Toda a realidade é o que se apresenta acima e abaixo.
Não escrevo, apesar de utilizar, um baluarte pétreo; mas um convite formal para uma releitura da sua visão. Acredito piamente que seus sentidos lhe enganarão ao tentar entender o quão inexatos somos. Queimemos na fogueira, irmãos, com o objetivo único de transcender os elementos, de tornar ao pó o que foi pó. O pó que se perde no vento, se perde na imensidão cintilante do rio e na imensa e grotesca abóbada refletida na água. Queimemos o antigo, o que costuma ser verdade; abriremos espaço para não um teorema, mas uma experiência. 
Proponho uma sugestão, caro onironauta. Turve suas linhas limitativas, entorte o que você costumava ser e aprenda que eu e você somos bem mais que nós. Somos tijolos de um muro gélido, que anseia por um aríete ebúrneo. 
Derrube-o!

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Vinde a mim, almas depravadas.

Botticelli, Sandro. 1485, Florença (Itália).
Há muito tempo, alguém disse que existiu um inferno. Orquestrado por anjos e demônios, morada de abominações e incredulidades, lembranças juradas de morte por pesadelos infamemente imperfeitos. Alguém teve a audácia de dizer que existiu um inferno, não com labaredas cálidas e postos da danação eterna. Apenas um inferno que não conhecíamos foi o suficiente para abrir todo um buraco no atômico espírito do mundo. O inferno sou eu, disse o rei sol. 
Eu sou um produto do meio da mais profunda cratera infernal. Fui sonhado por Gaia e moldado por Gepeto. Quetzalcoatl se enroscou no ventre de minha progenitora e implorou para que a morte livrasse o mundo de tal perdição. Eis que aqui estou.
À triste sina do meu processo concebido ás margens do rio Estige, rogo que esqueça o antiquíssimo semblante juvenil que carrega meu corpo. Peço que, finalmente, olhe para mim como um ancião, igual.