quarta-feira, 13 de julho de 2016

Mar tender

Um amigo tinha a experiência louca de mergulhar na poesia como afunda no oceano. Dizia ele que as palavras tinham fluido, tinham movimento no papel/coração. Enxergo a imagem de uma mão entrando no meu peito, encontrando espaço pela carne apodrecida e doente. A mão é a minha, o espaço é gélido e atraente. Não há dor, não há sangue, há frio e vazio como a boca de uma serpente esperando o desjejum mensal. Respiro fundo meu cigarro.
Respiro e piro. Piromaníaco dentro de mim.

sábado, 19 de março de 2016

Epifania da real


Tento ao máximo externalizar o mais impessoalmente pessoal de mim nesses espaços em branco virtuais, mas não pude deixar de trazer um fato cotidiano para a posteridade. Uma mulher uma vez me explicou algo que ela chamou de "epifania". Ela costumava citar muito em suas obras, principalmente no fim de sua vida, que as coisas são mais que coisas. Existe algo "lá fora" que é bem maior do que a luz pode refletir sobre. Foi então que ela me disse que o que eu mais procurei, em copos discretos e pitando sussurros alheios, estava aqui. 
Epifanar é mais do que simplesmente sair. Não é se abster de um mundo. É acreditar em outro, hierarquicamente mais valioso. 

Minha dor maior atualmente (claro que eu iria achar uma dor) é confundir quem existe.
No outro mundo e nesse. Me afeiçoar à um ser que não existe onde eu existo foi a maior autossabotagem que eu pude realizar.

terça-feira, 15 de março de 2016

amor tácito

Era tarde da noite,
um copo conhaque com mesa numa
uma tigela com morangos
mofados, os morangos
Caio me mostrou jeitos diferentes de sentir a mesma dor. fez que lacerar se tornasse mais que um verbo, quase um causa mea mortis. é como se o agora fosse uma nuvem de fumaça que sufoca o agora. que vai piorando mas que nunca deixa de se tornar pior. uma escada sem um final.

sábado, 13 de fevereiro de 2016

O sexo e o gênero.

O corpo criou um dos mais complexos sistemas ao designar as genitálias destacáveis - peças de encaixar. Com a mais inocente das intenções, abriu um imenso abismo subjetivo para seres complexos como humanos. Veja, o mundo existe como uma lâmina d'água, frágil e corruptível. O mundo que é lâmina é o ortodoxo, aquele que não causa desconforto ao olhar. O mundo que existe de verdade é mais que isso: é a água profunda e ignota, é o céu imenso e fértil. Não é permitido, segundo as leis celestiais criadas por qualquer entidade sensata, tentar transformar toda a existência em apenas uma mísera linha perdida e transparente que separa as dimensões solitárias dos sonhos e da dor. O homem e a mulher não são extremos, são reflexos na superfície tremulante. Toda a realidade é o que se apresenta acima e abaixo.
Não escrevo, apesar de utilizar, um baluarte pétreo; mas um convite formal para uma releitura da sua visão. Acredito piamente que seus sentidos lhe enganarão ao tentar entender o quão inexatos somos. Queimemos na fogueira, irmãos, com o objetivo único de transcender os elementos, de tornar ao pó o que foi pó. O pó que se perde no vento, se perde na imensidão cintilante do rio e na imensa e grotesca abóbada refletida na água. Queimemos o antigo, o que costuma ser verdade; abriremos espaço para não um teorema, mas uma experiência. 
Proponho uma sugestão, caro onironauta. Turve suas linhas limitativas, entorte o que você costumava ser e aprenda que eu e você somos bem mais que nós. Somos tijolos de um muro gélido, que anseia por um aríete ebúrneo. 
Derrube-o!

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Vinde a mim, almas depravadas.

Botticelli, Sandro. 1485, Florença (Itália).
Há muito tempo, alguém disse que existiu um inferno. Orquestrado por anjos e demônios, morada de abominações e incredulidades, lembranças juradas de morte por pesadelos infamemente imperfeitos. Alguém teve a audácia de dizer que existiu um inferno, não com labaredas cálidas e postos da danação eterna. Apenas um inferno que não conhecíamos foi o suficiente para abrir todo um buraco no atômico espírito do mundo. O inferno sou eu, disse o rei sol. 
Eu sou um produto do meio da mais profunda cratera infernal. Fui sonhado por Gaia e moldado por Gepeto. Quetzalcoatl se enroscou no ventre de minha progenitora e implorou para que a morte livrasse o mundo de tal perdição. Eis que aqui estou.
À triste sina do meu processo concebido ás margens do rio Estige, rogo que esqueça o antiquíssimo semblante juvenil que carrega meu corpo. Peço que, finalmente, olhe para mim como um ancião, igual.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

o adeus de um vencedor

Eu tinha medo de existir com você, do seu lado. Eu perdi todo o meu encanto pelas palavras quando você jogou fora o que existia dentro delas. Eu esperava que dar o que me encantava seria exatamente um presente que colocaria um fim na dependência mentecapta que agrilhoa os perniciosos momentos meus com seus ósculos e amplexos. Um vórtice de poeira e fel seria a melhor imagem para meu interior. Esperar a bomba detonar no meio do pátio enquanto toda a vida se esvai de mim e dos outros. Meu medo de existir com você me fez existir. com. você.
espero que um dia possa agradecer pelos presentes macabros que a vida resolveu me dar (não você, de longe sua mente não apreciaria a vã existência que represento). Meu universo particular se encarregou de criar uma história mais bonita que a verdadeira para me acalentar nos suspiros desesperados de um embalo mofino. Um dia teremos descanso, meu caro amigo. No fundo da cratera mais fétida, pungente e fumegante do vale das sombras.